DestaquesParlatório

GASTRONOMIA 4.0: O SABOR DO FUTURO


Vivemos numa época em que o passado chega rápido. Hoje, os produtos e os modos de produção não têm um tempo de vida linear. Elas duram o tempo que a indústria estabelece, de acordo com a velocidade considerada necessária para fazer a roda da economia girar.  É o fenômeno da obsolescência programada, onde tudo é acelerado, intenso e volátil, como num filme de ficção.

A mudança de paradigma atinge em cheio toda a cadeia de valor da gastronomia. É conectividade do campo à mesa, incluindo os setores de produção e de serviços. Nunca tanta tecnologia foi utilizada para produzir e comercializar alimentos. Para atender às demandas do consumidor contemporâneo, o setor gastronômico atravessa uma verdadeira revolução.

Gigantes do mercado varejista dão exemplos eloquentes de que seguem o caminho trilhado pela grande indústria rumo à automação. Em 2017, a Domino’s, uma das maiores empresas do mundo na distribuição de pizzas, com cerca de 10 mil lojas em mais de 70 países, iniciou o serviço de entrega domiciliar por meio de drones e por veículos autônomos. Já a Amazon abriu a primeira loja automatizada de supermercados, chamada Amazon Go. Nela, não há atendentes nem caixas. Cada cliente, ao entrar, recebe um código QR escaneado por computadores. Depois, um sistema de câmeras e sensores de peso instalados nas prateleiras reconhece o que o consumidor pegou e debita no cartão de crédito cadastrado. Veja aqui como funciona.

Não só as grandes empresas despertaram para a necessidade de inovar. A comunidade global Food Tank publica anualmente uma lista de organizações a serem observadas, selecionadas entre aquelas dedicadas a causas relacionadas à alimentação . Grande parte das 118 Organizations to Watch in 2018 desenvolveram ferramentas tecnológicas, que auxiliam ou são a própria razão de ser do empreendimento. A variedade vai de máquinas agrícolas inteligentes – capazes de controlar a produção, identificar pragas, irrigar o solo e fertilizá-lo com precisão – a aplicativos que conectam restaurantes a entidades assistenciais para destinação das sobras, evitando o desperdício.

Não sem razão, todo o ecossistema de start-ups agroalimentárias – AgriTechs e FoodTechs – vem despertando o entusiasmo crescente dos investidores-anjo. As preferidas são as que realizam a interconexão digital de objetos, processos, alimentos ou qualquer coisa relacionada com a alimentação. É a tecnologia IoF ou Internet da Comida, conjunto de ferramentas que medem e registram dados do alimento e que prometem modificar drasticamente o modo pelo qual fazemos nossas escolhas alimentares.

Os novos tempos chegaram e o profissional que quiser ter sucesso neste novo cenário terá também que desenvolver novas habilidades: formação multidisciplinar, capacidade de adaptação, domínio do tempo dos processos e networking eficiente. Além, é claro, de um tremendo know-how em gerenciamento de riscos. Afinal, o controle das coisas saiu das mãos de quem faz e passou para as mãos de quem vende. E estes são inapelavelmente guiados pelas mãos de quem consome. Ou seja, para o bem ou para o mal, somos nós que definimos os rumos da nova gastronomia.

Neste contexto, atribuir papeis de mocinho e de bandido é um atraso evolutivo. Não há tempo nem espaço para discussões maniqueístas. A realidade se impõe e, para acompanhar o ritmo frenético da modernidade, a gastronomia tem que se adaptar às mudanças, caminho inexorável para quem não quer perder o bonde da história nem engrossar os anais dos bons negócios gastronômicos fracassados.

Para que o leitor não entenda que estamos pregando aqui o determinismo histórico, com a submissão absoluta da gastronomia aos desígnios do Mercado, afirmamos que o futuro pode não ser tão sombrio quanto parece. Compreender a tecnologia como aliada não é o fim do mundo. É apenas o fim do mundo como o conhecemos. Lamentamos informar que o futuro idealizado pela geração baby-boomer (que é a de quem escreve este post, inclusive) virou passado. No trabalho, na rua e na cozinha.

Entretanto, a remodelagem tecnológica que a civilização atravessa não implica, necessariamente, no triunfo da gastronomia-nutella sobre a gastronomia-raiz. Não foi assim com nossos avós nem será com nossos netos. Isto porque, ao fim e ao cabo, o que importa é o resultado final. Assim como o forno de microondas não nos fez esquecer do fogão à lenha, a impressora 3D não substituirá o doce feito no tacho.

As novas gerações podem ser pragmáticas, digitais, volúveis e impermanentes. Mas não são trouxas. Que elas saibam usar a inteligência artificial para fazer uma gastronomia cada dia mais humana!

 

 

 

Compartilhar:

7 comentários

  1. Roberta 3 maio, 2018 at 09:35 Responder

    Concordo muito. Por mais que se automatize o setor, o prazer proporcionado pela comida estará diretamente ligado ao amor de quem a faz.

  2. Fred 3 maio, 2018 at 09:37 Responder

    Muito interessante. Gosto deste blog pq fala sobre coisas que os blogueiros sem noção não fazem ideia que existe.

    • Opsofagos 3 maio, 2018 at 10:06 Responder

      Fred, sugira outros temas que você gostaria de ver no blog. Teremos prazer em pesquisar e escrever sobre eles.

  3. Anitta Ferreira 3 maio, 2018 at 09:39 Responder

    As máquinas nunca vão substituir as pessoas em atividades que envolvem sentimentos. A preparação da comida é uma delas. Belo artigo, parabéns.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *.