Dia desses, fomos nos despedir de um amigo que se mandou para o andar de cima. O velório foi realizado numa casa especializada em cerimônias fúnebres onde já havíamos estado anteriormente, sem contudo presenciarmos a quantidade de serviços oferecidos. Desta vez, teve música ao vivo de violino e flauta (com um setlist de muito bom gosto, diga-se), wifi de alta velocidade, buffet com iguarias e bebidas altamente selecionadas, entre outras amenidades.

Para arrematar, uma lembrancinha para cada convidado: um bemvelado.

Bem-velado? Oi! Quase aproveitamos a ocasião para caírmos duros no lugar certo. Nem em surto agudo de criatividade imaginaríamos uma versão de bem-casado como forma de agradecer presença em funeral. Neófitos em velórios high society, fomos informados de que existe uma versão “bem” para praticamente tudo na vida (e na morte): bem-casado, bem-nascido, bem-batizado, bem-empregado, bem-divorciado e bemvelado.

Até então, achávamos que os rituais funerários estavam cada vez mais rápidos e impessoais nas grandes cidades. Praticamente instantâneos, não permitiam a confraternização desejável, o compartilhamento de memórias sobre o falecido, e nem exigiam mais que fossem oferecidas comidas e bebidas. Bem, mudamos radicalmente de opinião depois deste evento social cercado de luxo e glamour em que nos despedimos do amigo. Para completar o espanto, ouvimos dizer que a família dispensou a transmissão do velório, ao vivo, pela internet, tendo em vista que os parentes conseguiram chegar a tempo para o funeral. Sim, você leu corretamente. Hoje também é possível contratar serviço de streaming para cerimônias fúnebres.

Com tantas possíbilidades mercadológicas, apareceu, claro, uma nova modalidade profissional inusitada: o promoter de funerais (sim, existe).

O episódio que vivenciamos nos remeteu aos velórios de antigamente. Ao analisar comparativamente as situações, percebemos que, embora adaptada a novas regras sociais, a solenidade ainda se pauta por uma lógica de divisão de classes. Servir comes e bebes durante os rituais fúnebres é tradição ancestral que se mantém e, ao que parece, com viés de alta tendência fashion. Parentes e amigos atravessam a cerimônia de maneira simples ou luxuosa, conforme permite a conta bancária de quem se foi. Mudam as excentricidades, mas o vil metal continua ditando as regras, durante a vida e além dela.

Na nossa infância no interior de Minas, as crianças não eram bem-vindas em velórios. Por isso mesmo, eles eram envoltos numa aura de mistério, despertando a curiosidade infantil. Como os velórios eram realizados na sala, ficávamos geralmente na cozinha, à espreita, com um olho na comida e outro no defunto, que jazia no cômodo ao lado. Quando o finado era pobre, serviam basicamente cafezinho com uma comida “de sal”: tabuleiro de macarrão com queijo, ou uma bandeja de salgadinhos, ou sanduíches de mortadela. Durante a madrugada de vigília, quando muito, tinha um caldinho de feijão para espantar a friagem.

Diferenças à parte, em velório de rico ou de pobre, sem distinção, indispensável mesmo era a cachacinha democrática para desentristecer. Velório sem cachaça, nem pensar, pois sinalizava desapreço pelo falecido. Beber o defunto fazia parte dos ritos da morte no interior. Outro costume que ninguém deixava passar: lavar o pé com aguardente para afastar a morte do caminho. Quem não fazia isso, podia encomendar o caixão de uma vez. Era batata! Não raro, sob influência etílica, o velório se tornava um acontecimento festivo, com os vivos contando causos e piadas ou cantando modas de viola em homenagem ao morto.

Em velório de rico, canja gorda de galinha, empadão, bolinho de bacalhau, barquete, cueca virada e outras quitandas, bolos e doces variados, cerveja, licores e até vinho. Receitas especiais também eram preparadas para a cerimônia, gerando comentários posteriores do tipo “essa delícia foi servida no velório do fulano de tal”. Obrigatória também a figura das carpideiras, contratadas para cantar e chorar por 24 horas, tempo que durava o velório.

Não sabemos de onde viemos nem para onde vamos, mas uma coisa é certa: todas as ocasiões importantes são excelentes oportunidades – ou subterfúgios – para comer e beber. A comida e a bebida aproximam, acalmam e confortam as pessoas. Com a presença delas, os rituais sociais parecem agradar tanto aos vivos quanto aos mortos. Os vivos costumam demonstrar contentamento. Já os mortos, nunca voltaram para reclamar.

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29 comentários

  1. Alfredo Magno 6 outubro, 2019 at 10:02 Responder

    Sou mineiro de Abaeté e moro nos Estados Unidos a 8 anos. Aqui os velorios de pobre não tem o aconchego dos nossos. Já os dos ricos parece que é o mesmo daí pelo que vocês falam no texto.

  2. Mª das Graças Fulgêncio 6 outubro, 2019 at 10:03 Responder

    Sou de Porto Alegre. Me identifiquei com o post de vocês. Aprendi muito. Parabéns e escrevam mais sobre esse assunto.

  3. Carlos Augusto Janini 6 outubro, 2019 at 10:11 Responder

    Ah as quitandas dos velórios de Minas. Chego a sentir o gosto das delícias da minha terra. Obrigado por me lembrar.

  4. Vania Rocha de Queirós 7 outubro, 2019 at 15:08 Responder

    Na zona da mata, tem muito bolo, quitanda, café e cachaça nos velorios da roça. Essas modernidades não chegaram aqui ainda.

  5. Fabiana de C. Torres 8 outubro, 2019 at 14:36 Responder

    Uhhh delícia de post! Lembrança de beber o morto nos velórios de São João del Rei. Tinha quitanda, empadão, salgadinho, sanduíche, quentão, cachaça e café. Hoje não sei como é. Só telefono quando algum conhecido falece. As convenções sociais mudaram muito.

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