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Annus horribilis, annus mirabilis

Um ano pode ser horrível e incrível ao mesmo tempo?

2020 provou que sim. Não foi a primeira vez. Na Inglaterra do século XVII, os supersticiosos temiam que 1666 fosse um ano tenebroso por conter o número da besta (666). De fato, foi. O país enfrentou uma epidemia de peste bubônica e um incêndio de enormes proporções que quase destruiu Londres. Enquanto aguardava o fim da epidemia, Isaac Newton se refugiou no campo. Com tempo para pensar à sombra das macieiras, fez suas grandes descobertas. Assim, o ano horrível para os ingleses foi também um ano incrível para a Humanidade.

Há duas expressões em latim que designam ambas as situações: annus horribilis e annus mirabilis. Antes dos anos horríveis, já se falava da situação oposta: o ano milagroso, maravilhoso ou, simplesmente, o ano incrível. John Dryden intitulou de “Annus mirabilis” o poema que fez sobre o ano de 1666. O poeta inglês considerou extraordinário que, depois de tanta desgraça e sofrimento, o povo e o país ainda seguissem em frente, se erguessem e começassem tudo de novo. A partir daí, a expressão é usada para fazer referência a anos em que há grande desenvolvimento em algum assunto ou conhecimento, ou uma série de eventos muito significativa e impactante.

Foi o que ocorreu em 2020. A Ciência nunca progrediu tanto em relação a uma doença como neste ano. Em circunstâncias normais, criar uma vacina leva tempo, até décadas. Dessa vez, várias vacinas foram criadas em alguns meses. Sob tal aspecto, 2020 foi realmente um ano incrível. Seguindo a mesma dicotomia, foi também um ano de frustrações e oportunidades, de provação e superação, mas, sobretudo, 2020 foi carimbado com as cores sombrias de verdades inconvenientes. A maior delas: a efemeridade da existência humana.

No último post do ano, por diversas razões, escolhemos falar sobre dois símbolos da cultura japonesa: a sakura e o haicai. Ambos estão enraizados na história do Japão, país que revisitaríamos em março, mais precisamente na semana seguinte à decretação de pandemia pela OMS. Tudo estava meticulosamente planejado para que estivéssemos no Maruyama Park, em Kyoto, para as festas de Hanami Matsuri – festival de contemplação das flores que acontece em todo o país durante a primavera. Lembrar das tradições nipônicas, no apagar das luzes deste ano, alivia a frustração por estarmos há tanto tempo sem usufruir do prazer de viajar. Além disso, são duas representações muito apropriadas para ilustrar os sentimentos envolvidos nas privações e provações impostas por 2020.

De acordo com tradições budistas japonesas, a flor de cerejeira representa a impermanência da vida. As pétalas da sakura florescem uma vez ao ano, duram uma semana e caem com o vento. A beleza da queda das flores é inspiração constante para inúmeros poemas e canções japonesas. Os samurais – guerreiros japoneses – também eram grandes apreciadores da flor de cerejeira. Assim, desde a Antiguidade, a sakura é associada à transitoriedade humana e ao lema dos samurais: viver o presente sem medo. Delicada e frágil, simboliza a fugacidade da vida e que por isso devemos apreciá-la, aproveitando ao máximo cada momento. A flor de cerejeira também permeia lendas e histórias no Japão. Uma delas conta que a palavra sakura tem origem no nome de uma princesa. Konohana Sakuya Hime, ao cair do céu perto do Monte Fuji, teria se transformado em uma linda flor.

Talvez, o que melhor represente a fugacidade da sakura seja o haicai, famosa composição poética oriental formada por três versos de cinco, sete, e cinco sílabas, verdadeiro desafio criativo de sintetizar significados e sentimentos em 17 sílabas. A capacidade de síntese do poeta expressa a simplicidade, traço ancestral da civilização asiática. Para escrever um haicai, é preciso abrir mão de expressar diretamente os sentimentos. Amor, alegria, tristeza nunca aparecem com essas palavras. São os elementos que simbolizam o estado de espírito, consistindo na arte de dizer o máximo com o mínimo de palavras.

O haicai mais famoso de Ôshima Ryôta descreve a curta duração da florada da cerejeira, do desabrochar até a queda das flores. Pode ser também interpretado como uma parábola da existência humana. Face à morte, o homem notará que a mais longa das vidas parecerá ter sido tão fugaz quanto as flores de cerejeira.

Com as metáforas extraídas da viagem de férias frustrada, percalço irrelevante num ano de tanta perda e de tanta dor, deixamos nossos melhores votos para que Pachamama, Mãe-Terra geradora de vida, derrame suas bençãos sobre o novo ano, fazendo dele um ano incrível, no qual impere a simplicidade e a compreensão da impermanência humana.

Queremos – e esperamos – que nossos textos sejam capazes de induzir sorrisos em nossos leitores e ajudem a tornar 2021 um ano mais leve para todos eles.

FELIZ ANO NOVO!

FELIZ ANNUS MIRABILIS!

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